Entrevista exclusiva com Cipriano Alexandre, técnico do Democrata de Valadares

        Com três décadas militando como treinador de futebol, Cipriano Alexandre construiu uma carreira de nível internacional. Começou em Mato Grosso, passou por Clubes do interior do Rio de Janeiro, trabalhou no Espírito Santo e se consagrou no Equador.
Mas por razões insondáveis do destino,  foi parar em Valadares, sua Cidade natal, a qual deixou ainda na infância, para dirigir o tradicional Democrata de Valadares. Reconhecido pela equipe do Del Rey Esportes na arquibancada do Joaquim Portugal, no amistoso entre Athletic e Coimbra, o solícito treinador concordou, gentilmente,  em conceder uma entrevista à nossa equipe.

Del Rey: Professor, o senhor iniciou a carreira em Mato Grosso, passou por Rio, Espírito Santo, mais adiante foi para o  futebol equatoriano e lá construiu uma bela carreira, como o senhor poderia descrever essa trajetória?

Cipriano:No meu caso, não tem nada mais difícil do que falar de si próprio, são 29 anos dirigindo futebol profissional, com um aprendizado incrível, passei pelas três décadas onde o futebol só fez evoluir. O futebol hoje deixou de ser um jogo de futebol, é um esporte que envolve muitas coisas e a análise de desempenho chegou para, na minha opinião,  qualificar o trabalho. O que eu penso de mais importante de toda essa história foi ter aprendido com os uruguaios, com os argentinos e com os colombianos.

Del Rey: A sua passagem no Democrata de Valadares tem algo especial, afinal de contas, Valadares é a sua Cidade natal, isso influiu na assinatura do contrato? Já era um projeto pessoal do senhor? o que o senhor tem a dizer sobre isso?

Cipriano: Eu acredito que tudo na vida do ser humano passa muito pela vontade de Deus e a verdade é que eu sou natural de Governador Valadares, nascido em Governador Valadares. Saí daqui ainda criança e retornar ao futebol brasileiro  e poder retornar a Governador Valadares,  para mim tem um peso muito grande, uma responsabilidade muito grande. Eu sinto uma atmosfera completamente diferente de outros lugares, a torcida é linda  e apaixonante, a diretoria é muito tranquila,  de gente de diálogo, isso é muito importante no futebol de hoje , pois  o futebol deixou de ser empírico, de improviso.  Poder voltar às origens , como é o meu caso, é muito legal.

Del Rey: Em relação à pré temporada em Tarumirim,  qual a sua avaliação?

Cipriano: Eu penso que todos os times, perdão todos os Clubes, que estão construindo seus times, o que chamamos de pré temporada que é o que acontece antes da temporada,   te dá uma noção do que falta, do que  você  realmente precisa. Não dá pra construir um time do zero e chegar num determinado momento da preparação, que é justo esse que antecede o campeonato, e você  não ter consciência de que está faltando alguma coisa. Mas, a gente tem uma certeza, o grupo quer e quando é assim,  as chances são muitos grandes.

Del Rey: Uma outra coisa que deve afligir as comissões técnicas é o cansaço em decorrência das longas viagens. Certamente o  Democrata é das equipes que mais irão viajar. Pergunto, quais os cuidados que devem ser tomados pela sua comissão técnica  para  tentar minimizar os danos desse fator complicador?

Cipriano: As viagens  longas sempre são um fator  complicador, sempre são. Não tem mais segredo no futebol, as únicas formas de  minimizar os efeitos das viagens são: boa alimentação, bom descanso  para os atletas, um bom ar condicionado,  principalmente Valadares, onde  a temperatura é muito alta, suplementação, viagens muito bem organizadas,  sem você sair na véspera do jogo e chegar de qualquer jeito, daqui a 12 / 13 horas  vai estar jogando um jogo de futebol, a recuperação pós viagem é de fundamental importância. A gente, sem querer fazer média, tem uma diretoria essa consciência, de que o ônibus tem que ser  muito bom, a alimentação tem que ser muito boa, desde que se iniciou o período do trabalho até o último dia  de competição.

 Então nós acreditamos que essa estrutura que a gente tem, essa logística que a gente tem, vai permitir que na quinta ou sexta rodada, nós tenhamos um time inteiro, depois dessa fase  desgastante  da competição, para  suportar melhor a sequência de jogos naturais mais as viagens.

Da esquerda para a Direita , Wander Santos ( assistente técnico) Fábio Noronha ( treinador de goleiros ) Cipriano Alexandre , Narciso Dias ( prep físico) Jonatan Baltar ( assistente de preparação física) Cicero Braga ( analista de desempenho ) Foto: arquivo pessoal

Del Rey: Uma outra questão, apesar de termos vários times de camisa pesada,  a maioria esmagadora das equipes, por conta do insano calendário,  acaba tendo que começar o trabalho do zero, o que torna difícil  ter alguma referência das equipes, ainda assim, na opinião do senhor, seria possível apontar alguns favoritos?

Cipriano:Você  fez uma pergunta e praticamente você  respondeu ela, quando você começa um trabalho do zero, construir um time não é tarefa das  mais fáceis, nem é do dia para noite. Tem times com camisas muito pesadas mesmo, você tem razão,  é uma verdadeira roleta russa, quem larga nas frente tem muita chance.

Del Rey: No sentido da pergunta anterior, a gente reconhece a grandeza do Democrata e imagina que a pressão para voltar ao módulo I seja muito grande, como um treinador experiente com você  lida com isso?

Cipriano:Eu não sei se a palavra correta é lidar com isso, mas  eu penso o seguinte,  trabalhar com futebol e não estar envolvido em pressão, não estar envolvido em cobrança, é melhor que você não esteja.  É muito melhor ter uma camisa como a do democrata, uma torcida que abraça o time e você ter aliados externos,  como a torcida, a camisa, o peso do Democrata, do que  você ter tudo isso contra.  Eu penso assim, é melhor ter um gigante do seu lado do que contra você.

Del Rey: Professor, analisando aqui o seu elenco, percebe-se que  o senhor indicou a contratação de três jogadores Equatorianos, em que pese o fato  de dois deles  já terem atuado no Brasil, o senhor acha, tendo em vista que a competição é de tiro curto, que eles podem ainda  sofrer com a adaptação?

Cipriano:O maior problema do jogador de futebol que vem de outro país não é a adaptação, é a familiarização, se ele se familiariza e tem as características necessárias para jogar futebol, ele vai jogar, haja vista que jogador equatoriano tem no mundo inteiro, eu penso que a familiarização é ponto  mais importante dessa história.

Del Rey: Ainda em relação ao elenco, como se deu a captação dos outros atletas, o senhor também teve participação direta em todos os nomes?

Cirpiano: Direta e indireta, eu tenho que respeitar e agradecer muito a direção do Democrata encabeçada hoje por Edvaldo Filho, de nós termos feito tudo com muito diálogo e muito respeito à instituição.  É claro que temos, como todas as equipes deste módulo e com raríssimas exceções, limitações orçamentárias, mas buscamos jogadores com perfil para encarar essa pressão.

 Del Rey: Uma coisa que chamou a atenção, o senhor aproveitou uma das poucas oportunidades de conhecer os adversários e viajou quase 500 km até aqui para ver um jogo treino, quando poderia, confortavelmente, mandar algum auxiliar. Qual a avaliação que o senhor fez de tudo que viu aqui e qual a diferença entre  vir pessoalmente e mandar um auxiliar?

Cipriano: A questão de mandar um auxiliar me parece que é você se livrar das tarefas mais árduas, é uma viagem cansativa e desgastante. Porém, é muito importante que todo grupo saiba e tenha certeza, de que quem está  à frente,  está disposto a qualquer sacrifício pela causa. Eu  pude observar que, tanto Coimbra, quanto Athletic, são times que vão disputar o quadrangular final, só se acontecer alguma coisa muito atípica para que não seja assim.

O Coimbra demonstrou linhas muito definidas, atletas dentro do campo de jogo que,  em determinado momento do jogo, a parte física  sobressaiu de tal maneira que dominou o encontro no segundo tempo.

O Athletic mostrou jogadores muito interessantes, alguns  conhecidos por mim,  como Léo Gonçalo e Lucão e jogadores interessantíssimos  como o lateral esquerdo  Morassi, se não me falha a memória o nome, como Mococa, remanescente do time anterior. O Sato me pareceu muito  bom jogador, então  a gente nota que o Athletic manteve a coerência e o  critério na hora de contratar,  com certeza vai brigar.

 Del Rey: Qual a referência do senhor como treinador e em termos de estilo como você gosta de montar as suas equipes?

Cipriano: Eu não nego que tive muitas dificuldades para ajudar na formação do plantel, tomando em conta o fato de eu estar há três anos e meio fora do país. Não nego essa dificuldade. Porém, temos muitos amigos, pessoas importantes que confiam e gostam da gente, que me ajudou a trazer zagueiros como o Círio, jogadores muito importantes  como Iago, a gente encontrou na casa o Walison, que está crescendo a cada dia e melhorando um par de coisas,  pode jogar em time grande. Lube,  o goleiro.  Nós contamos muito com ajuda de pessoas.

Hoje eu estou mais  familiarizado, apesar de a bola não ter rolado, tem uma gama de pessoas que a gente conhece e que nos ajuda muito. Como eu te falei anteriormente, falar de si próprio é muito complicado, eu gosto do jogador moderno, jogador potente, jogador que é capaz de fazer o básico no futebol. Futebol consiste em atacar e defender, se o sistema  é 3-5-2,  ou se é  4-2-3-1, ou ainda 4-2-4,   isso é secundário, o importante é o atleta  estar pronto para fazer aquilo que a gente sabe desde que o futebol foi inventado. Futebol consiste em atacar e defender.

Del Rey: Só pra terminar, não poderia deixar de fazer esta pergunta, mas se o senhor entender que respondê-la seria dar armas aos adversários, a gente entenderia perfeitamente. O senhor já tem a escalação do time para a estreia?

Cipriano: Claro que a gente tem um time pronto  na cabeça.  Os próprios atletas sabem quem vai iniciar jogando, porém,  todos nós temos o chamado BID, esperar cair no BID, para evitar alguma surpresa antecipada.

Mas, eu penso que nas primeiras rodadas, você guardar esse tipo de informação te assegura de alguma coisa, pois a especulação nas quatro primeiras rodadas nunca vai deixar de existir, até que todo mundo  se conheça.

Fernando Souza

Fernando Souza é Rubro Negro nato, torcedor do Athletic, formado em Filosofia pela UFSJ,  apaixonado pela  cultura mineira e aficionado pela história do futebol.

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