Entre sonhos e dificuldades: a história de Davyd, o paredão de Minas

O que pode esperar um jovem brasileiro que sonha em seguir carreira no futebol? Quais os seus objetivos dentro das quatro linhas? Mais do que isso, qual a sua motivação para superar cada obstáculo nessa longa caminhada dentro do mundo futebolístico?

Milhares de garotos que sonham em dar uma condição de vida melhor para a família, enfrentam todos os dias a rotina de viagens – muitas delas longas – para chegar cedo no treino. O dia-a-dia num Centro de Treinamento que, por diversas vezes, não oferece as condições apropriadas para executar as atividades físicas do atleta.

Qual a estrela guia que mantém esses jovens firmes no sonho de se tornar um profissional no mundo da bola? Champions League? Copa do Mundo? Aonde eles podem chegar e onde estão agora? Sobre o assunto, a reportagem do Del Rey Sports entrou em contato o jovem goleiro Davyd, de Minas Gerais, para saber mais da sua carreira dentro do futebol.

Davyd Francoso de 19 anos, goleiro que começou sua carreira no futebol com apenas sete anos de idade. Os primeiros passos foram dados no Social Futebol Clube, da  cidade de São João Del Rei, em Minas Gerais, onde atuou até a categoria sub-17, quando se transferiu para o Figueirense, também de São João – clube  que tinha uma parceria com o social.

Hoje o jovem arqueiro íntegra o elenco do Tupi –MG, e apesar da pouca idade, o atleta já disputou um torneio na Holanda, além de colecionar títulos de torneios realizados na cidade e regionais. Campeão do interior mineiro sub-17, Davyd também ergueu o troféu da Heemeskerk Cup – torneio que reúne equipes como Zenith de São Petersburgo, Ajax, Queens Park Rangers, New York Soccer Club e muitos outros – sendo também eleito como melhor goleiro da competição.

Como a maioria dos jovens que buscam seguir carreira no futebol, Davyd também encontrou obstáculos em sua caminhada. O goleiro conta que as principais dificuldades sofridas envolviam questões de estruturas e até de alimentação por onde passou.

(Foto Davyd com seus 16 anos o Sub-17 do Social Futebol Clube. Arquivo Pessoal)

Cara, dificuldades como estrutura, alimentação, transporte. Viver em alojamento de time pequeno e muito complicado, então você enfrenta vários problemas.” conta Davyd. “Já passei muita dificuldade que prefiro ‘deixar por alto’ para não manchar os clubes.” emendou.

Apesar das dificuldades citadas, Davyd
afirma que até já pensou em desistir, mas que existia ‘algo a mais’ que o fazia seguir em frente. “E algo inexplicável. Já pensei várias vezes, já tive vários motivos. Mas tem algo que não me deixa desistir. O amor pelos gramados, a sensação de um jogo é algo inexplicável mesmo.” afirma o jovem goleiro.

( Foto: Davyd em ação pelo Social, contra o Atletico-MG. Arquivo Pessoal)

Minha motivação, que me faz seguir em frente, é ver meus pais que sempre me apoiaram, torcendo por mim. Amigos sempre se mostrando presentes, apoiando, ajudando. E claro, os meus sonhos de conquistar o que almejo na vida.” completou Davyd, que até já pensou em mudar se profissão.

“Cara, eu já tive vontade de seguir carreira militar.” conta o goleiro que seguiu. “Até mesmo por conta do meu pai ser (militar). Então sempre convivi com isso.” concluiu.

 (Foto: Davyd com seus irmãos João Pedro, Jonathan e seus pais Carlos Magno e Daniela / Arquivo Pessoal)

Quem não poupou elogios ao arqueiro foi seu treinador, Ricardo Campos. O técnico falou do título conquistado com Davyd, de como seu atleta sempre foi aplicado nos treinos do começo da carreira.

“Esta foto foi na final de 2014. Nós fomos campeões na categoria sub-15. Campeão regional em Santa Cruz de Minas. O Davyd começou com agente no social aos 8 anos de idade junto com o Gilberto, treinador de goleiro e com o Elói, que sempre trabalhou com o Davyd. Ele ficou este período todo com agente, desde a fase de iniciação, municipais e regionais, dando sequência no Campeonato Mineiro nas categoria Sub-15 e Sub-17.” Conta Ricardo que emendou.

(Foto: Davyd Campeão pelo Social aos 15 anos, junto com o seu Treinado Ricardo Campos. Arquivo Pessoal)

“Sempre foi um goleiro dedicado,  disciplinado, sempre gostando de treinar e hoje, o que está acontecendo na vida profissional do Davyd é ele colhendo todo o fruto de todo trabalho que ele desenvolveu desde a fase de iniciação. Porque não adianta ter só o potencial, sendo que o futebol engloba algumas coisas como o extra campo. Ele foi um menino positivo que hoje está colhendo estes frutos.” Finalizou.

Confira abaixo um pouco mais da história do goleiro Davyd:

 

Qual o seu sentimento ao iniciar sua trajetória dentro das quatro linhas? Ainda sente aquele friozinho na barriga quando entra em campo?

Com certeza. Aquele frio na barriga antes de toda partida é o que nos torna jogador. O que faz a gente sempre querer mais.

 

No cenário mundial, quais os jogadores que mais te inspiram? E quais estilos de técnicos te agradam dentro do futebol?

Tenho como espelho, hoje, estrelas como Alisson (Liverpool e Seleção Brasileira), e no Ter Stegen (Barcelona e Seleção Alemã). Por estar onde estão e por serem grandes jogadores, me espelho demais.

 

Qual a maior aventura que você já viveu dentro do futebol?

Cara, até hoje foi ter sido campeão na Holanda, com destaque. Foi uma pequena parte de um sonho realizado. Digamos, um primeiro passo.

( Foto: Davyd eleito o melhor goleiro da Heemeskerk Cup . Arquivo Pessoal)

E alguma resenha que possa nos contar.

Resenha tem várias, né? (Risos) Uma que marca muito é quando o time onde eu estava, e nosso ambiente era incrível. Dançávamos onde íamos na viagem, no aeroporto, após títulos, nas nossas comemorações em vestiário. Sempre um  ambiente muito bom e essa alegria passava para dentro de campo e deu no que deu: Campeões. Jogador tem que ser alegre, pois futebol é mágico.

 

Momento marcante na carreira

Lembro muito dos meus primeiros passos, eu chegando lá no clube onde jogava, molequinho (risos). Lembro aprendendo a cair no chão, tudo isso. O Elói (primeiro técnico) já estava lá. Lembro que eu não batia bem tiro de meta. Aí em uma época, o ‘nenem barba azul’ (técnico) perdeu a paciência no treino e me deixou cobrando uns 30. Depois daquele dia nunca mais errei (risos).

(Foto: Aos 7 anos Davyd treinando na escolinha A.L.G. Arquivo Pessoal )

Viagem inesquecível

Creio que minha viagem mais marcante foi a da Europa. Teve um jogo, o que classifico a gente para a semifinal do 2 torneio. A gente achou um gol no início (da partida), depois só deu os caras (adversários). Eu fechei o gol.

(Foto: Figueirense Futebol Clube Campeão do Heemeskerk Cup . Arquivo Pessoal)

Lance inesquecível

Teve uma cobrança de falta, e esse lance não sai da minha cabeça. Quase que na linha da grande área, o cara cobrou lá no ‘trinco’ e eu de mão trocada tirei. Aí a torcida gritou ‘oooooooo’, e começou a aplaudir.

Para mim esse dia é inesquecível.

 

E não para por aí. Daniela Sena, mãe do goleiro Davyd, se enche de orgulho ao falar do filho, e se emociona ao lembrar de toda a trajetória do jovem atleta desde o início da sua carreira. Todas as dificuldades, planos, a mudança na rotina, até o apelido que viralizou dentro de campo, tudo é contado por ela em forma de uma carta dedicada ao filho. Confira abaixo o relato emocionante de Daniela:

(Foto: Davyd e sua mãe Daniela em momento de descontração. Arquivo Pessoal)

“Pensar em você, meu filho, é lembrar de tanta coisa até chegar aqui, e saber que muito chão ainda tem que acontecer.

Desde pequeno não podia ver uma laranja que já ia chutar (quantas palmadas já levou por isso). Não podia ver uma meia velha, já fazia ela de bolinha e lá estava você  chutando. E por ai a fora: papel, pedra, tudo virava bola. Acho que isso é coisa de craque.

Lembro de umas da primeiras luvas. A gente sem dinheiro pra trocar (pois rasga muito fácil), e o seu primeiro treinador de goleiro (Elói) deu pra você. Era enorme pra sua mão, mas você treinou muito tempo com ela.

Forte também é a lembrança de quando você cismou de jogar na linha. Seu treinador da época (Gilberto) tendo a visão desde já que você  seria um ótimo goleiro, chamou seu pai e disse que no time dele você seria titular, mas na linha ficaria na reserva. Pronto, desistiu (risos). Louvo a Deus pela estratégia dele.

São tantas lembranças né. Afinal, desde os sete anos  no futebol, tantas dificuldades, tanto dinheiro contadinho para viagens e o que importava era te ver feliz. Nunca importou o sacrifício que seu pai e eu fazíamos.

Eu trabalhava a noite e de manhã cedo tinha que levar você no treino. Quantas vezes dormi na arquibancada ouvindo a voz do Elói no fundo: “Davyd, treina direito. Joga direito.”

Não acabava de pagar a prestação de uma luva e vinha você  precisando de mais. Roupas térmicas e calças de goleiro, sua avó não tinha mais o de remendar. Mas você não desistiu, jamais.  Já vendemos móveis, já apertamos o máximo em casa, já perdemos noites de sono pensando como pagar uma viagem, um uniforme, uma chuteira que estava rasgada e já não aguentava mais ser colada, já choramos, rimos, sofremos, nos orgulhamos, afinal, são

12 anos de futebol. Enquanto pude, nunca faltei em um jogo sequer. Até apelido eu fiz generalizar: “BEBÊ”. Haaaa, quando a arquibancada gritava ‘Bebê’ eu me orgulhava demais. Hoje não posso mais te acompanhar, mais vejo cada post que sai, cada notícia, e  sempre compartilho com orgulho  seus passos.

Social, América,  Figueirense, Europa, Tupi… Chegou no profissional enfim. Sei o tanto de chão que ainda tem pra caminhar. Como eu digo, você voltou ao primeiro degrau e  terá que subir tudo de novo. Mas isso pra você  é moleza. Nunca vi você  reclamar de cansaço, nunca vi você  faltar um treino sequer. Falar de você é lembrar de disciplina, dedicação, vontade de vencer, companheirismo.

Enfim. Até você se firmar, continuarei fazendo campanhas pedindo ajudas, continuarei tentando patrocínios, continuarei  pedindo, pedindo e pedindo, sem vergonha  ou constrangimentos. Têm quem torça por você e acredite em você como nos acreditamos.

Pra finalizar, agradeço a Deus, pois sei que toda providencia diária Ele quem te supre. Ele, um dia, seu pai orando por você, mostrou a ele que está na frente de sua jornada profissional. Eu tenho fé, eu sempre acreditei e acredito em seu sucesso. Como te disse ontem, basta cada dia. Entregue a Deus seu dia, suas preocupações, suas tristezas e alegrias a cada vez que for dormir. Amanhã sempre será outro dia. Deus é Deus, que adora surpreender.

Você está pronto pro mercado do futebol meu eterno bebê.

Estou aqui pro que der e vier. Muito não tenho, aliás, não tenho nada, mas por amor e  por acreditar em você,  conto com a ajuda de quem tem mais do que eu e acredita em você. Você chegará lá. E como falo sempre, passando por tantas dificuldades, lá na frente, poderá olhar por alguém que estará  começando também.

Te amo!

Mamãe.”

 

Confiram algumas imagens de Davyd .

 

Cristovão Santos

Graduando em Jornalismo - Universidade Federal de Alagoas.  Adm da pagina @deste1993

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *